O Grupo de Pesquisadores Pataxó (ATXÔHÃ) realizou o primeiro Curso “Atxohã – Muká mukaú dxahá atxôhã patxutxô – de História, Cultura e Língua do Povo Pataxó”. Esta experiência inédita e inovadora de etnoformação virtual ocorreu todas as sextas-feiras, entre agosto e novembro deste ano. No total, foram mais de 50 horas de atividades. O curso contou com o apoio da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social da Bahia (SJDHDS).

O Grupo de Pesquisa Atxôhã foi fundado em 1998, por jovens professores e pesquisadores Pataxó, e vem atuando firme, e de forma destacada, “em diversas frentes de pesquisas, estudos, produção de materiais didáticos e ensino da língua patxôhã nas aldeias do povo Pataxó na Bahia, e depois, foram estendidas as atividades para as aldeias de Pataxó de Minas Gerais e Rio de Janeiro”, explica o coordenador do Atxôhã, Awoy Pataxó.

O Curso Atxôhã é mais uma iniciativa deste grupo de pesquisadores do povo Pataxó. Participaram desta edição do curso mais de 250 estudantes, professores e pesquisadores, assim como lideranças, caciques e mestres da tradição Pataxó. O objetivo foi discutir temas voltados para a pesquisa, o estudo e o ensino do patxôhã, da história e da memória cultural, contribuindo para fortalecimento das práticas identitárias, culturais e das lutas Pataxó.

O coordenador Awoy Pataxó, que é graduado em Educação Escolar Indígena pela UNEB, ainda destacou que nestes tempos de pandemia, o Curso “Muká mukaú dxahá atxôhã patxutxô” só foi possível através de sala de aula virtual online. “Foi um enorme empenho e esforço dos participantes para se conectarem aos tempos e meios digitais e instituir um momento riquíssimo de formação em Patxohã”, pontuou.

Para Anari Pataxó, doutoranda em Antropologia Social pelo Museu Nacional – UFRJ, os frutos do encontro superaram os desafios da sua realização. “Apesar das dificuldades encontradas, principalmente com o acesso à internet nas aldeias, foi possível discutir com os parentes os processos e contextos históricos de interação linguística entre os Pataxó e outros povos na região Sul da Bahia”, afirmou.

“Debatemos sobre os processos de resistências, adormecimento e retomada da língua materna entre os Pataxó. Além disso, foi possível fazer uma avaliação do trabalho de pesquisas, dar referências de estudos e métodos de ensino do Patxôhã nas Aldeias, trabalho este que já estamos realizando a 22 anos”, comentou a pesquisadora.

Também participante e organizadora do curso, Arissana Pataxó, que é doutoranda em Artes Visuais pela Universidade Federal da Bahia, o Curso do Atxôhã se demonstrou “uma ferramenta e uma boa oportunidade, pois mesmo distantes, cada um em suas aldeias, estamos juntos, e entre parentes. E meu destaque vai para a presença dos mais velhos, das lideranças como professores formadores e mestres da nossa tradição Pataxó”.

“Com eles pudemos compreender e afirmar, ainda mais, as formas de ancestralidades e pertencimentos étnicos, e assim, pudemos referendar as contribuições dos anciões e suas formas de oralidades, versões e narrativas que ajudam a fortalecer a autoria e escrita entre os Pataxó”, explicou o pesquisador.

Apoio institucional

Coordenador de Políticas para Povos Indígenas da SJDHDS e membro efetivo do Grupo de Pesquisadores Pataxó, Jerry Matalawê, participou do curso como um dos organizadores e avaliou positivamente os resultados dos quatro meses de trabalho.

“O apoio institucional da SJDHDS à realização do Curso ‘Atxohã – Muká mukaú dxahá atxôhã patxutxô’ vem de encontro às atribuições na SJDHDS, que é promover medidas que assegurem a promoção, proteção, defesa dos direitos dos índios, assegurando a integridade física e sócio cultural dos povos indígenas, através do respeito à sua organização social e política, costumes, línguas, crenças, tradições e sítios rituais e históricos, contribuindo para o seu fortalecimento e autonomia”, comentou o coordenador.

Já o secretário da SJDHDS, Carlos Martins, parabenizou todos cursistas Pataxó e enalteceu esta importante iniciativa do Povo Pataxó, através do Grupo de Pesquisa Atxôhã. “Essa iniciativa contribuiu para fortalecer as culturas, as histórias, as línguas indígenas e, acima de tudo, manter viva a presença e a chama da existência indígena no Brasil. Fico muito feliz pela realização deste trabalho”, afirmou o gestor da pasta.

Resultados em texto e vídeo

Para além dos debates, muitas atividades pedagógicas foram realizadas, a exemplo de produção, individual e em grupos, de variados tipos de textos como receitas, músicas, poemas, poesias, cordéis, documentários e filmes com histórias animadas.

Segundo Karkaju Pataxó, que é graduado em Ciências Sociais pela UFMG e membro da coordenação do curso, “essa ação representa a resiliência de um Povo que soube se adaptar ao longo da sua história para não perder seus valores e sua rica cultura. E, nestes tempos de pandemia, nos reunimos virtualmente para elaborar vários materiais que, após ajustes, vão ser utilizados em todas as escolas das aldeias Pataxó como materiais didáticos, inclusive nas escolas não-indígenas também, como forma de combater o preconceito, discriminação e racismos contra os povos indígenas, em especial na Bahia”.

Fonte: Ascom/SJDHDS