As histórias de resistência das mulheres negras abordadas na literatura emocionaram as cerca de 500 pessoas que lotaram o Centro Cultural de Mucugê, nesta sexta-feira (17). Sentado nas cadeiras, no chão ou em pé, o público, formado em sua maioria por mulheres, participou de uma mesa com as escritoras Conceição Evaristo, homenageada da terceira edição da Festa Literária de Mucugê (Fligê), Lívia Natália, Rita Queiroz e Laura Castro. O bate-papo foi mediado pela professora Camila Moreno. 
Conceição falou sobre sua ‘escrevivência’. “Eu trabalho muito com neologismos que eu crio a partir de dois ou mais vocábulos, porque as palavras não conseguem expressar todos os sentimentos e gestos”, comentou. Para ela, na história das mulheres negras e das pessoas que passam por processo de exclusão, por qualquer motivo que seja, apesar da dor, há sempre um posicionamento de resistência. “Esta capacidade de resistência é o que nos coloca aqui, competentes para contar, para chorar, para engolir o choro”.
Conceição afirmou ainda que há muitas maneiras de resistir. “As pessoas pensam, por exemplo, que o silêncio significa passividade, mas ele pode significar também estratégia, tática. Há momento em que é preciso parar para medir o poder de força. E, mais do que nunca, a gente tem o poder da palavra, especialmente com as redes sociais. Mas hoje a gente precisa dessa palavra coletiva, porque se cada um de nós for falar apenas em nosso nome, ou se preocupando apenas com a própria trajetória, corre-se o risco de ficar pelo caminho ou de ser conquistado”. 
Já Lívia Natália apresentou a história da sua formação como leitora, de como descobriu o universo dos livros, ao ser colocada de castigo em uma biblioteca, ainda criança, o que se transformou em um contato mantido desde então com a literatura. “Ler é uma atividade que me fere e me cura, me cura por me permitir me reconhecer na literatura, mas me fere por me reconhecer nem sempre do jeito que gostaria”, destacou. 
Lívia ressaltou também a importância da Fligê. “Precisamos desse processo de fazer a nossa literatura circular, a gente precisa democratizar esse acesso. Eu já perdi as contas de quantas pessoas vieram me abraçar, pegar autógrafo”. Segundo ela, os autores presentes no evento participam, naquele momento, do cotidiano do público. 
“Os nossos rostos estão nos postes da cidade. Então, é uma possibilidade muito rara de espelhamento que as pessoas têm. Na minha formação, eu não tive a oportunidade de ter as autoras e autores que eu amava por perto. Essa feira literária é, antes de tudo, não apenas um gesto de reconhecimento do nosso trabalho, mas um respeito pelo afeto à literatura que a gente escreve e pelas pessoas que nos recebem nesse afeto”, disse. 
Professora da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), Lídia Cunha afirmou que acompanhar as mesas de debate proporciona uma bagagem importante, especialmente para os professores. “Os professores que estão aqui vêm para reavivar e adquirir novos conhecimentos. As autoras, em geral, são novas escritoras, não no sentido de estarem começando a escrever, mas de não serem tão conhecidas do público, que não fazem parte do cânone. Então, tudo o que aqui se passa é uma maneira de formação continuada de professores, que, nas suas escolas, vão ter mais essa bagagem para trabalhar com os alunos. Por isso eu afirmo que este tipo de feira precisa continuar. A Fligê precisa ter a sua quarta edição”. 
A Festa Literária de Mucugê é uma correalização do Instituto Conquistense de Inclusão Social e do Governo do Estado, com patrocínio do governo federal.
Repórter: Raul Rodrigues