A formação do músico se faz em cima dos palcos, nos bares, nas rodas de violão, nas universidades, pelas rádios e também naqueles momentos em que ele está do lado de cá, na plateia. Nesse contexto, artistas consagrados, baianos ou não, destacam a influência da Concha Acústica do Teatro Castro Alves (TCA) em seus trabalhos. Entre os dias 13 e 15, com patrocínio da Coelba e da água de coco Obrigado, o festival ‘Eu sou a Concha’ vai marcar a reabertura do espaço.

O cantor alagoano Djavan protagonizou alguns shows memoráveis na Concha. Segundo ele, o público baiano é um dos mais receptivos e fervorosos do País "e na Concha isso se multiplica porque tem uma conformação que deixa show e plateia integrados de forma indissolúvel. Os shows aí são muito energéticos, são inesquecíveis. Eu tenho recebido reclamações nas redes sociais porque ainda não marquei a apresentação em Salvador, mas foi exatamente por isso. Estou esperando pela Concha. Eu quero fazer lá, estou com saudade de cantar na Concha Acústica”.

Com 40 apresentações, a cantora Margareth Menezes é a recordista de shows na Concha. Para ela, que volta ao local no dia 13, num encontro mais do que especial com Maria Bethânia, o espaço “abraça todo mundo que está ali dentro, parece uma cestinha de alegria, eu sempre curti. É um lugar perfeito, maravilhoso para interagir com a plateia. Eu gosto de fazer shows de palco e a Concha é diferenciada. No verão é preciso ter aquela ‘vibe’ com a galera e a Concha proporciona isso”.

A cantora também relembra grandes apresentações que assistiu no local, com João Gilberto, Titãs, Luís Melodia, entre outros. “No início era tudo muito novo e foram shows que me marcaram. O espírito de ir para a Concha já é animador, é mais relaxado, o público vai com a emoção de estar em um espaço ao ar livre, que é um templo da música”.

Passarela cenotécnica

Margareth adverte que é "incrível" tocar no local, mas é preciso ter um bom técnico de som. Nesse quesito, a nova Concha oferece a passarela cenotécnica, novidade tecnológica que vai contribuir para a formação de profissionais e para o engrandecimento dos espetáculos. “A Bahia tem bons profissionais que conseguem fazer a harmonização da audiência. [A passarela] é uma aula para o profissional, que vai aprender ali que existem outras formas de se jogar o som para a plateia. É um espaço maravilhoso”.

A acessibilidade, para Maga, como é carinhosamente chamada pelos fãs, é uma das grandes peculiaridades da Concha Acústica, que agora possui um estacionamento para 300 carros. “É um ambiente diferente, um espaço aonde todo mundo vai, fica em um lugar central da cidade, no Campo Grande, próximo ao final de linha. Pode-se chegar de ônibus ou a pé e, por ser um lugar grande, acaba sendo acessível também financeiramente. Todo mundo pode curtir a Concha, é um lugar em que se faz formação de plateia [e onde] podem ser realizados espetáculos diferenciados”.

A Concha é d’Oxum e de todos os orixás

Outro artista que transborda baianidade, Gerônimo se alegra ao afirmar que a Concha sempre foi a grande opção do ‘povão’ da Bahia. “Historicamente é onde eram feitos os programas ao vivo e era o espaço onde se realizavam os grandes festivais. Eu vejo a Concha Acústica como um grande patrimônio ao qual todas as pessoas podem ter acesso e espero que continue sendo, como sempre foi, uma oportunidade para novos artistas”.

O cantor e compositor reverencia a dimensão histórica do espaço. “Eu não sei como mensurar a importância da Concha Acústica para a Bahia, mas grandes acontecimentos culturais, sociais, estudantis, populares e políticos aconteceram ali, onde se dava o discurso e a manutenção da música. Espero que ela continue sendo este espaço disponível para que as pessoas façam seu movimento”.

Gerônimo afirma ser mais um que está na expectativa, como todo mundo, para ver as mudanças que acontecerem na Concha. “Ali pode ter espetáculo circense, teatro romano, onde os personagens interagem com o público, que é o juiz, faz o julgamento e participa. A Concha é hoje a pérola da cidade”.

O artista ainda cita alguns shows que assistiu no local, de nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa, Moraes Moreira, Armandinho, entre outros. “Eu era apenas um ilustre desconhecido e, quando eu vi João Gilberto, não se ouvia mais um barulho de uma folha, era só a música. Este foi um dos grandes momentos que o espaço nos proporcionou”.

Matéria para música

O currículo de Tonho Matéria é extenso. Mestre de capoeira, destacou-se em carreira solo, fez parte do Olodum e hoje é uma das vozes do Araketu. Para ele, “a Concha pode convocar os elementos culturais que temos aí e misturar com a música. Estou muito feliz porque ela vai atender de fato este chamado e misturar as linguagens. Nós precisamos fazer isso na nossa cidade”.

O primeiro show de Tonho Matéria na Concha foi nos anos 90 e, a partir dele, a carreira do cantor deslanchou. “O mais interessante foi tocar com um africano que a gente não conhecia, Salif Keita. Isso me serviu, foi muito importante, porque a partir dali fui convidado a fazer shows na Europa. Depois, fui para o Olodum, cantei em vários projetos sociais e culturais. É [um processo] muito interessante”.

Ele acredita que também foi construído enquanto músico na Concha. “Eu fui espectador, antes de começar a cantar e tocar. Depois que virei músico, também fui a vários shows e é um lugar muito mágico. Ela aproxima o público do artista, é uma convivência mais próxima. Era muito bacana o que acontecia lá. No teatro é diferente, mais formal, o público fica sentado, o artista mais sério. Na Concha, há uma interatividade musical muito profunda. Quero ir, agora com o Araketu, para esse espaço novo”.

Repórter: Raul Rodrigues