No mês em que se comemora o Dia da Consciência Negra, a Secretaria da Educação do Estado, por meio do programa Educar para Transformar, apresenta um bom exemplo da implantação das diretrizes curriculares quilombolas na rede estadual. Com 180 estudantes matriculados, o Colégio Estadual Eraldo Tinoco, localizado na comunidade quilombola Santiago do Iguape, em Cachoeira, no Recôncavo, comemora os resultados da iniciativa. Os estudantes estão cada vez mais se reconhecendo enquanto quilombolas e valorizando sua cultura, costumes e identidade

Ao todo, a unidade tem alunos de oito comunidades quilombolas da região como Santiago do Iguape, Kaonge, Dendê, Kalembá, Opalma, São Francisco do Paraguaçu, Engenho da Ponte e Engenho da Praia. Além dos conteúdos gerais das disciplinas, os estudantes estão se apropriando dos saberes tradicionais, por meio do resgate histórico e cultural do povo quilombola. Isso acontece com debates, seminários e apresentações artísticas.

Em sala de aula, os estudantes já discutiram os objetivos e princípios da educação quilombola, a exemplo do direito à igualdade, liberdade, diversidade e pluralidade, proteção das manifestações da cultura afrobrasileira e a valorização da diversidade étnico-racial. Como consequência, o pertencimento das suas origens e orgulho de ser quilombola, como enfatiza Evelin Ferreira, 18 anos, 3º ano do ensino médio. “Eu me reconheço totalmente quilombola porque essa cultura é antiga em nossa comunidade e acho muito importante que outros jovens venham a reconhecer e valorizar as tradições nos dias de hoje”.

É o que também afirma Darine Santana, 18, filha de uma das coordenadoras da Associação dos Remanescentes de Quilombo de São Francisco do Paraguaçu. “É essencial esse trabalho que está sendo desenvolvido na escola, pois, conhecendo um pouco da história de nossos antepassados é que hoje podemos lutar pelos nossos direitos”.

O estudante Antônio de Oliveira, 35, que cursa o 3º ano do ensino médio, destaca a importância deste trabalho na escola. “Ensino a arte da capoeira para crianças da comunidade e procuro sempre levar uma mensagem positiva sobre nossos costumes e tradições”. Já Marcos Vinicius de Oliveira, 18, aluno do 2º ano, ressaltou que a identidade quilombola não é definida apenas pela cor da pele. “Tenho pele e olhos claros e nem por isso vou negar as minhas origens. Sou filho de pais quilombolas e me reconheço como um”.

Valorização da identidade étnico-racial

Apresentar para a classe estudantil a história do Brasil nos parâmetros de construção da sociedade, destacando como cada grupo se instalou, desenvolveu, se impôs e resistiu, faz com que os estudantes se identifiquem com a história de seu povo. É o que avalia a vice-diretora do colégio, Ana Clara Amorim. Ela disse que “alguns alunos ainda não se reconhecem enquanto quilombola, mas, aos poucos, isso está mudando porque eles acabam entendendo o contexto histórico e geográfico da região. Além disso, também os leva a desenvolver um sentimento de pertencimento de sua identidade e cultura”.

Ana Clara também explica que, a partir das atividades envolvendo discussões sobre as diretrizes, os professores estão percebendo a maneira como os estudantes estão reagindo a essas abordagens. “Isso servirá de base para que, na nossa jornada pedagógica de 2016, a gente tenha um entendimento maior do que será mais interessante trabalhar na escola”. A vice-diretora ressalta ainda que a Secretaria da Educação está dialogando com a prefeitura de Cachoeira para que as diretrizes voltadas à educação quilombola sejam aplicada, também nas escolas municipais.

A professora Tabatha Fernandes Mascarenhas, que leciona Educação Física, começou a articular com seus colegas novos projetos e ações de valorização da essência cultural dos remanescentes de quilombos. “Estamos estruturando atividades lúdicas para trazer para o cotidiano escolar os aspectos inerentes às suas tradições e que tem como base a África. "Vamos trabalhar os penteados originalmente africanos, a exemplo das tranças embutidas e turbantes, vestimentas, maquiagem para a mulher negra e envolver os meninos na questão da ornamentação e riqueza de detalhes, por meio da representatividade das cores como o preto, vermelho e dourado”.

Fonte: Ascom/Secretaria da Educação do Estado