Um movimento organizado por líderes negros em defesa dos direitos humanos e da cidadania, que teve como cenário a Bahia. Poderia ser mais uma ação realizada por uma das entidades que atuam no estado em defesa da igualdade racial, mas não é. A Revolta dos Búzios, conhecida também como Revolta dos Alfaiates, Revolta das Argolinhas e Inconfidência Baiana, ocorreu em 1798, na ainda Capitania da Baía de Todos os Santos, e teve importante influência dos ideais da Revolução Francesa.

Além de ser emancipacionista, a Revolta dos Búzios defendeu importantes mudanças sociais e políticas na sociedade. Os quatro líderes negros foram mortos, no dia 8 de novembro de 1799, por terem promovido o movimento que, após muitas lutas, avançou e contribuiu para a abolição da escravatura.

Nessa data, há 216 anos, por defenderem ainda um governo republicano, democrático, com liberdades plenas, o livre-comércio e a abertura de portos, os heróis nacionais Manuel Faustino, Lucas Dantas, João de Deus e Luís Gonzaga, negros, foram enforcados e esquartejados, na Praça da Piedade, em Salvador, por discordar do poder político da época.

Denominações populares

O termo Revolta dos Alfaiates se deve ao grande número desses profissionais que participaram do movimento e ao fato de dois dos quatro executados como líderes da conspiração exercer a profissão. A designação Revolta dos Búzios foi atribuída porque alguns revoltosos usavam um búzio (concha de molusco em forma de espiral) preso a uma pulseira para facilitar a identificação entre si.

Já a denominação Revolta das Argolinhas surgiu porque alguns participantes usaram uma argola em uma orelha pelo mesmo motivo. Estes são termos de origem popular, e a expressão Revolta dos Búzios predominou, na transmissão oral na Bahia, devido à associação com as origens africanas.

Em 2011, durante o lançamento do livro ‘Heróis Negros do Brasil’, viabilizado pelo Governo do Estado, por meio da Fundação Pedro Calmon (FPC), o historiador Ubiratan Castro, então presidente da FPC, lembrou que a Revolta dos Búzios foi o primeiro movimento de todo o Brasil que teve a participação expressiva e efetiva de populares, ou seja, pessoas que não eram intelectuais, ricas ou da elite. “Eles se reuniram para elaborar um programa de independência do Brasil, fim da escravidão e de criação de uma república no Brasil”.

Olodum divulga história do movimento

Desde 1983, o Bloco Afro Olodum mantém viva a memória das lutas libertárias da Bahia, celebrando todos os anos a memória dos que perderam suas vidas na Revolta dos Búzios. Para o presidente da entidade, João Jorge Rodrigues, as ações resgatam o importante papel desempenhado pelos heróis em prol da liberdade, igualdade e fraternidade. “Em 2011, após o decreto da presidente Dilma Rousseff, eles passaram a ser considerados oficialmente heróis. A Revolta dos Búzios foi a mais importante revolta social do País no período colonial”.

Ao propor o fim da escravidão e defender regimes sociais igualitários, os heróis baianos se mostraram mais avançados do que os inconfidentes mineiros. Os ideais da Revolta dos Búzios seriam assumidos poucas décadas depois por combatentes da guerra pela Independência do Brasil na Bahia, vitoriosa no dia 2 de Julho de 1823.

Monumento na Via Expressa

No Governo do Estado, a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi) é responsável pelas ações que valorizem a população negra e pelo resgate da memória de quem lutou contra a desigualdade entre os povos na Bahia. A titular da pasta, Vera Lúcia Barbosa, informou que, no mês de agosto, uma série de atividades foi realizada para resgatar a memória dos heróis da Revolta dos Búzios.

De acordo com ela, um dos editais da Sepromi para homenagear a Revolta dos Búzios foi desenvolvido em conjunto com as secretarias de Cultura (Secult) e da Educação, e terá a proposta fechada no dia 20 próximo. “Estamos em fase de conclusão para seleção de três propostas. Um delas é para a construção de um monumento na Via Expressa”, disse Vera Lúcia.

A obra é “para que a gente não esqueça essa memória que ainda está viva. Precisamos criar monumentos, registrar nos livros [dizendo] quem foi Luis Gonzaga, quem foi João de Deus, quem foram todos os heróis da Revolta dos Búzios. Afinal, as conquistas [de] hoje se devem muito a estes grandes lutadores e lutadoras, como Dandara [e] todas as demais. A gente deve fazer este registro histórico para continuar na luta em prol de conquistas para o povo negro”.

Repórter: Jhonatã Gabriel