Motivados pelas ações educacionais, em unidades prisionais da Bahia, 890 detentos se inscreveram no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Aspirando a liberdade e a reinserção social após o cumprimento da pena, eles se empenham na rotina diária em sala de aula com os professores na modalidade Educação para Jovens e Adultos (EJA).

As provas nas unidades prisionais de todo o País acontecem nos dias 1º e 2 de dezembro próximo, e, na manhã deste sábado, cerca de 50 internos do Complexo Penitenciário da Mata Escura participaram do ‘Aulão Inaugural para o Enem 2015’.

O professor e secretário de Cultura do Estado, Jorge Portugal, na condição de voluntário, deu uma aula de Português e Redação, além de dicas aos alunos. Ele também elogiou a iniciativa da Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização (Seap).

“Hoje estou me sentindo um professor mais responsável ainda. Na condição de secretário sairei daqui [levando] o compromisso de formular parcerias com o sistema prisional, como o incentivo à produção artística e cultural dos detentos, criação de projetos especiais para premiar pessoas que escrevem poesias, contos, que trabalham na área de artes plásticas, dar visibilidade a isso e aumentar a autoestima dos internos”, destacou Portugal.

Ele disse ainda que ficou impressionado com as diversas atividades realizadas no complexo prisional, como a Oficina de Artes e os galpões onde são fabricadas peças de alumínio, estopas, baldes plásticos, entre outros itens.

O superintendente de Ressocialização Sustentável da Seap, Luis Antônio Fonseca, afirmou que a ideia é devolver o apenado ao convívio social numa condição melhor do que na época quando entrou no sistema prisional. "Não importa pra gente o crime que ele cometeu. Nosso papel é vigiar, mas também procurar a cada dia, por meio de um trabalho técnico, específico com a família, assistente social, psicólogo, com os agentes penitenciários e os servidores como um todo, retornar este homem à sociedade na categoria de cidadão, de onde ele nunca deveria ter saído".

Educar para Transformar

A iniciativa da Seap reforça as ações previstas no programa Educar para Transformar. Por “acreditar que a educação transforma o indivíduo e que a [superação] da ignorância nos conduz à liberdade”, o professor de Geografia, Engeberto Apolinário, aproveitou o sábado livre para compartilhar os conhecimentos.

“Trouxe para eles questões com imagens e gráficos para fazer a simulação do que eles podem encontrar na prova do Enem, além de conteúdos relevantes como a dinâmica da população brasileira e o fenômeno da urbanização, [questões referentes] à terra e à reforma agrária, os efeitos da migração das pessoas por conta da mecanização no campo, entre outros aspectos”, detalhou o professor.

Maria das Graças Barreto, diretora do Colégio Estadual Professor George Fragoso Modesto, localizado no Complexo da Mata Escura, informou que na unidade já são desenvolvidas ações preparatórias para o Enem desde 2011. De acordo com ela, somente da Penitenciária Lemos Brito (PLB) são 350 pessoas matriculadas no EJA nos três turnos.

Ela contou que “já realizarmos aulas para o Enem, [e] aulões como este são importantes porque estimulam tanto os professores quanto os alunos. É uma forma de oxigenar o nosso trabalho. Eles estão privados de liberdade, mas o acesso à educação é um direito do interno”.

Prouni e Sisutec

Seis detentos da PLB já fizeram o Enem e conseguiram ingressar no ensino superior via Programa Universidade para Todos (Proune) e outro participa de curso técnico por meio do Sistema de Seleção Unificada da Educação Profissional e Tecnológica (Sisutec).

Com 42 anos, três deles cumprindo pena, Osmar Lisboa tem o sonho de fazer faculdade e orgulhar a família. Foi ele, inclusive, quem solicitou à administração do presídio que realizasse uma atividade complementar visando ao ingresso na universidade.

“As pessoas não têm noção do quanto são importantes estes aulões para levantar a autoestima e tirar nossas dúvidas. Imagine, alguém que está recluso e sair da cadeia para a faculdade. É muita grandeza para nós, que somos internos, para nossas famílias e para a própria sociedade”, enfatizou.

Repórter: Jhonatã Gabriel