Uma das maiores causas associadas à violência no estado, a questão das drogas passa a ser tratada sob uma perspectiva mais complexa pelo Governo do Estado. Ao divulgar, no dia 4 de novembro, o pacote de ações sociais do programa Pacto pela Vida, o maior investimento individual do montante de mais de R$ 50 milhões anunciados pelo governador Rui Costa está sendo dirigido ao Corra pro Abraço. O projeto da Câmara de Enfrentamento ao Crack e outras Drogas, da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHDS), terá investimento de R$ 13,6 milhões para o período de 2016/2017, passando de duas para oito equipes, ampliando a presença do estado em cenas urbanas de uso de drogas.

Ancorado no conceito da redução de danos, o projeto Corra pro Abraço foi criado em 2013, como projeto piloto, pelo Governo do Estado em parceria com a entidade executora Centro de Referência Integral de Adolescentes (C.R.I.A.). Implementado por meio da Superintendência de Políticas Sobre Drogas e Acolhimento a Grupos Vulneráveis, da pasta da Justiça Social, o trabalho vem obtendo reconhecimento de especialistas por promover o resgate da autoestima e dignidade e, em última instância, a reabilitação e reinserção social de usuários de drogas em situação de rua.

O edital de seleção pública do projeto será lançado pela SJDJDS no final de novembro. Os atendimentos estão previstos para serem iniciados em março de 2016. O projeto vai passar a atuar em cinco áreas de uso de drogas nas ruas de Salvador e três no interior do estado, em Lauro de Freitas (Itinga), Feira de Santana e Vitória da Conquista.

“Não podemos apresentar soluções simplistas para uma realidade tão complexa, que é motivada pelo processo de degradação dos valores éticos, da família e pela falta de sentimento de pertencimento do indivíduo em relação à sociedade em que vive. O Corra pro Abraço existe para cuidar de um segmento diretamente envolvido e afetado pela violência e pelas drogas, de modo a dar acolhimento e resgatar essas pessoas da visão de baixa autoestima sobre si mesmas e sobre seu potencial humano”, explicou o secretário de Justiça Social, Geraldo Reis.

“Ao atuar mais fortemente nesses cenários, a Câmara de Enfrentamento ao Crack e outras Drogas promove a visibilidade e cidadania dos usuários de substâncias psicoativas em situação de rua, por meio de ações de formação de vínculo, incluindo atividades sociais, artísticas e educacionais, oficinas de prevenção ao uso de drogas, assistência jurídica e encaminhamento à rede de atendimento”, explicou a superintendente de Políticas Sobre Drogas, Denise Tourinho.

Beneficiários

Usuário de substâncias psicoativas, Luciano Souza, 38 anos, há 15 anos vive em situação de rua. “Há um tempo atrás eu estava sozinho, cabisbaixo, aí eu conheci o Corra pro Abraço, esse pessoal que me trata bem, procurou levantar minha autoestima, é como se fosse minha família”, relatou. “É um projeto que ocupa nossa mente. Depois dele, melhorei em termos de aliviar as drogas. Eu era ‘carro desgovernado’, mas diminuí bastante”, contou o beneficiário.

O projeto, atualmente, acontece em duas cenas urbanas de uso de drogas em Salvador, a Praça das Mãos, no Comércio, e a estação do Aquidabã, onde uma equipe multidisciplinar com psicólogos, assistentes sociais, arte-educadores, advogados e outros profissionais se aproxima da população que está nas ruas, procura construir vínculos, fazer o atendimento inicial na rua e, conforme a demanda, encaminhá-los à rede de atenção básica e demais serviços da rede de assistência social.

André Dias, 27, há cinco anos na rua, conta como o projeto tem mudado a sua vida. “Achava que não podia. Eu falei para o pessoal do Corra pro Abraço: ‘mas eu bebo muito, eu cheiro muito’. Eles disseram: ‘você não acredita em você? É redução de danos, a gente vai te ensinar a reduzir’. E eu consegui. Recebi o certificado do curso de redutor de danos e estou fazendo o curso de azulejista. Eu bebia o dia todo, mas tive que reduzir bastante para poder participar das atividades. Meus amigos do projeto dizem que acreditam em mim, aí me dão força. É tudo de bom na minha vida”.

“Nesses dois anos conseguimos desenvolver uma metodologia diferenciada, mais humanizada, para trabalhar com esse público. Porque não adianta oferecer uma rede de equipamentos, se os técnicos que estão lá para atendê-los não forem humanizados. O ‘Corra’ dá visibilidade, leva para o teatro, para o museu, para o cinema. Faz com que eles se sintam pessoas com direitos e com valor”, explicou a coordenadora do projeto pela ong CRIA, Maria Eleonora Rabello.