Enquanto boa parte da população de Salvador ainda dorme ou se espreguiça na cama, a quadra esportiva da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), no Campus I, bairro do Cabula, diariamente, a partir das 6h, dezenas de mulheres e homens, a maioria na faixa etária entre 40 e 70 anos, fazem ginástica, praticam caminhadas, esportes e até corrida rústica. 

São moradores do Cabula e bairros adjacentes, e poucos deles fazem parte da comunidade universitária. Muitos nunca fizeram um curso superior, mas todos têm uma relação afetiva com a maior universidade pública baiana por conta dessas atividades, que no jargão acadêmico são chamadas de extensionistas. 

À frente de toda essa movimentação está o Grupo de Trabalho de Educação Física (Gtef), vinculado à Pró-Reitoria de Extensão (Proex) da instituição, e coordenado pelo professor Dilton Santos de Cerqueira. “Esse trabalho tem mudado a vida de muita gente. As pessoas que frequentam regularmente nossas aulas não ficam doentes com facilidade”. 

Em sua extensa programação, o grupo oferece gratuitamente as modalidades de ginástica eclética (aberta ao público), massoterapia funcional (para servidores da instituição), esporte solidário com basquete masculino e futebol de salão, caminhadas dentro e fora do campus, campeonato de futsal entre bairros e corridas de integração. As primeiras turmas começam às 6h e as últimas se encerram às 22h. 

Exercícios ajudaram na recuperação de AVC

A contadora Maria da Conceição Alves, 49 anos, não possui sequela aparente do acidente vascular cerebral (AVC) que sofreu em 2004. Naquele ano, morando no Cabula, ela já praticava suas primeiras aulas em uma turma do Gtef, mas carregava no corpo alguns graves fatores de risco para a saúde. 

“Eu pesava mais de 80 quilos, vinha de uma vida sedentária, tinha inchaço nos pés e dores de cabeça. Essa doença é silenciosa, ataca sem a gente perceber. Meu AVC foi no lado esquerdo, fiquei cega, foi terrível”, diz Conceição. 

Após a doença, ela se mudou para o bairro de Ondina, onde morou por 10 anos, mas nunca esqueceu as aulas na Uneb, e com muito esforço e força de vontade, continuou fazendo, mesmo sozinha, os exercícios que aprendeu com o professor Dilton. “Graças às suas aulas, durante todos esses anos, eu nunca desisti e sempre acreditei na minha recuperação”. 

Assim, graças a uma reeducação alimentar e atividade física regular, Conceição conseguiu o que nem os médicos acreditavam: a recuperação completa dos movimentos. Recentemente, ela voltou a morar no Cabula e não perde um dia da ginástica eclética do Gtef. 

Curso agrega valor ao trabalho de profissionais

As aulas do Gtef ajudam as pessoas não somente na conquista da saúde física, mas também na atividade profissional. Este é o caso da manicure Aurildes Rodrigues dos Santos, 49 anos, moradora de São Gonçalo do Retiro, bairro da periferia de Salvador. Ela agregou valor ao seu trabalho, oferecendo às clientes do seu salão de beleza sessões de massoterapia que aprendeu na Uneb. 

O relacionamento de Aurildes com a universidade tem quase a mesma idade do Gtef. Há 28 anos ela participa das aulas de ginástica no campus e recentemente faz o curso de massoterapia social oferecido pelo grupo.

“Eu pesava 85 quilos e estava grávida, quando comecei aqui. Hoje, tenho esse corpinho de 57 quilos”. A manicure revela que, quando precisa faltar uma aula, já se sente engordando, “com dores aqui e ali”.