No início do século XIX mulheres negras e ex-escravas se uniram para ajudar escravos a conseguir a liberdade. Em torno da fé em Nossa Senhora, criaram uma confraria católica, a Irmandade da Boa Morte, que saiu de Salvador e foi se instalar na cidade de Cachoeira, por volta de 1820. Desde então, todos os anos, as irmãs promovem uma festa que mistura elementos do catolicismo e do candomblé e é considerada uma das mais importantes manifestações culturais da Bahia.

Agora, essa história de luta e devoção foi transformada em patrimônio imaterial da Bahia. O decreto de reconhecimento foi assinado pelo governador Jaques Wagner, nesta sexta-feira (25), durante sessão solene na Câmara Municipal de Cachoeira. Ele inclui a Festa da Boa Morte no Livro de Registro Especial de Eventos e Celebrações.

“Essas mulheres lutaram e são um exemplo. Esse é um reconhecimento mais do que merecido. Espero que, com ele, a gente possa fortalecer ainda mais a tradição e manter viva a festa”, disse Wagner. O reconhecimento é uma salvaguarda à manifestação cultural afrocatólica, que passa a ter a proteção e o incentivo do Estado e da sociedade civil organizada. Uma garantia de que a tradição vai permanecer viva da mesma forma como é realizada atualmente.

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Entre os benefícios diretos do tombamento está a prioridade para a concessão de financiamentos públicos e privados. O diretor-geral do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural do Estado da Bahia (IPAC), Frederico Mendonça, explica que o registro já prevê a realização de ações de salvaguarda, como a publicação de um livro e um vídeo documentário sobre a festa; a elaboração de um projeto de um memorial da Boa Morte; além de estudos para a criação de atividades que gerem renda para as mulheres envolvidas na tradição.

“Nós só valorizamos aquilo que conhecemos, por isso vamos divulgar a Boa Morte por meio do livro e do DVD. Também já licitamos o projeto de um memorial, além de todo o benefício que o reconhecimento já traz, dando credibilidade e criando uma espécie de marca cultural”. Antes do registro, o IPAC realizou estudos técnicos e elaborou um dossiê. O trabalho, que durou um ano, resultou no documento que foi aprovado pelo Conselho Estadual de Cultura (CEC).

Além da Festa da Irmandade da Boa Morte, são considerados patrimônios imateriais da Bahia o ofício da baiana de acarajé, a roda de capoeira, o ofício dos mestres de capoeira, o samba de roda do recôncavo, o carnaval de Maragogipe e a festa de Santa Bárbara. Atualmente está em processo de reconhecimento o desfile dos afoxés no carnaval de Salvador.

Orla de São Félix é entregue restaurada

Além do tombamento da Irmandade da Boa Morte, durante a transferência da Capital de Salvador para Cachoeira, o governador entregou à população a requalificação da orla da cidade de São Félix. A obra, com investimento de R$ 2,4 milhões, consistiu na construção de um calçadão, praça, jardins, sistema de iluminação, estacionamento além da reforma da balaustrada com temas barrocos.

A intervenção criou mais um espaço de lazer para a população da cidade e para os turistas que visitam a região. “Este era um espaço nobre que por não ter estrutura não era freqüentado, agora a cidade e seus moradores ganharam um lugar para trazer a família, para a diversão, além é claro de deixar nossa cidade mais bonita e atraente”, destacou o prefeito de São Félix, Alex Sandro, durante a cerimônia de inauguração.

Marcos Santos, morador da cidade, disse que a nova orla foi um presente e tanto, principalmente para as crianças e jovens de São Félix. “A gente tem um rio desse e um espaço de orla que não era aproveitado. Agora vai dar pra trazer meu filho, passar as tardes nesse calçadão que ficou uma maravilha”. Já o economista Edson Barros, turista de Salvador, elogiou a obra. “Ficou mais bonito, já estive aqui antes e agora sim parece uma cidade turística”.

A requalificação faz parte das intervenções do programa Monumenta nas cidades de Cachoeira e São Félix. São mais de R$ 36 milhões em investimentos na recuperação de prédios de valor histórico e cultural. Entre os monumentos a Capela Nossa Senhora D’Ajuda, Conjunto do Carmo, Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, Paço Municipal, sete casarões, Igreja do Rosarinho, Cemitério dos Pretos, Igreja Nossa Senhora do Monte e Quarteirão Leite Alves.

Para Wagner esse é um trabalho que resgata a história e levanta a autoestima da população: “Deixar ruir um monumento é deixar ruir nossa história, nossa memória e nossos valores. Recuperar é colocar em destaque, é apostar no exemplo de nossos heróis e acreditar na construção de um futuro diferenciado”.