As mãos que ainda conseguem segurar a enxada são as mesmas que há seis meses começaram a segurar o lápis. Com a disposição de um jovem estudante dedicado, Ubaldo Dias, 106 anos, caminha duas noites por semana para a sala de aula na escola municipal de São João do Paraíso, um distrito de Mascote, no sul da Bahia. O aposentado é um dos 351 mil alunos do programa Todos pela Alfabetização (Topa), da Secretaria Estadual da Educação (SEC), que já beneficiou 171 mil pessoas na Bahia.

Somente na cidade de Seu Ubaldo, a cerca de 600 quilômetros de Salvador, são aproximadamente 600 alunos matriculados em 48 turmas. “Desde 2007, o Topa já realizou o sonho de mais de 500 pessoas nesta região, que antes eram consideradas analfabetas, assim como Seu Ubaldo, um verdadeiro exemplo de que nunca é tarde para aprender”, afirmou a coordenadora municipal do Topa, Unifleides Ferreira.

O cansaço de mais de um século de vida não parece atrapalhar os estudos de Seu Ubaldo. Em casa, ele reforça o aprendizado das aulas com a bisneta Letícia Lisboa, quatro anos. Os dois aproveitam para treinar as primeiras letras que aprenderam. Questionada sobre como se sentia ao ver o bisavô aprender, assim como ela, a ler, Letícia respondeu: “Feliz”.

Na escola, o antigo trabalhador rural acompanha com olhos atentos as explicações da professora Ana Cláudia Lisboa, 22 anos, que, além de alfabetizadora, é neta de Seu Ubaldo e mãe de Letícia. Três gerações diferentes unidas pelo universo do saber.

“Tanto como professora quanto como neta, me sinto muito orgulhosa do esforço de meu avô em começar a essa altura da vida uma nova etapa. Ele é um aluno atencioso e disciplinado que em pouco tempo conseguiu aprender muitas coisas, apesar de suas limitações”, comentou Ana Cláudia.

O sorriso espontâneo e a força de vontade do aposentado animam toda a sala de aula. Seu Ubaldo é tomado como exemplo e estímulo pelos seus colegas de turma. “Tem gente que não acredita que ainda podemos aprender e ele é a prova contrária”, explicou a também aposentada Maria Carmélia, 63 anos, que se senta perto de Seu Ubaldo.

Tanto Maria Carmélia quanto Seu Ubaldo e os demais estudantes do Topa são submetidos a um modelo construtivista de aprendizado desenvolvido pelo educador Paulo Freire. Trata-se, assim, de uma alfabetização popular que parte da realidade do aluno e utiliza da experiência de vida para ensinar e despertar a cidadania.

Hoje, Seu Ubaldo já escreve o nome completo e destacou que não pretende parar de estudar. “Minha neta insistia muito para eu vir aprender e sempre quis saber assinar meu nome completo. Então entrei no Topa e quero continuar a aprender”, disse, sorrindo.

Inscrições até o dia 31

Para os baianos que, assim como Seu Ubaldo, têm o sonho de se alfabetizar, as inscrições para o Topa seguem abertas até 31 deste mês. Os interessados, com idade superior a 15 anos, devem se dirigir à sede das diretorias regionais de Educação (Direcs) ou às secretarias municipais de Educação. Os municípios que ainda não aderiram à iniciativa devem procurar a coordenação do Topa na sede da SEC, no Centro Administrativo da Bahia (CAB), sala 402.

A meta do programa é alfabetizar, até 2010, um milhão de baianos, mudando com isso a realidade educacional vivida pela Bahia até 2006, quando o estado era considerado o campeão em analfabetismo. Na primeira etapa, em 2007, foram alfabetizadas 171 mil pessoas. Atualmente, o Topa conta com 351 mil alfabetizandos em sala de aula e a previsão é matricular 300 mil baianos para a terceira etapa.