Em uma área quatro vezes maior que o Bairro da Liberdade, a 10 quilômetros da localidade de Monte Gordo, em Camaçari, 12 integrantes do Grupamento Aéreo da Polícia Militar (Graer) tiveram o primeiro treinamento de instruções de sobrevivência e operações em área de Mata Atlântica.

O local escolhido pelo comando foi a Fazenda Monte Cristo, que reúne uma vasta reserva de mata fechada, além de uma intensa topografia e uma grande variedade de animais, insetos e plantas. Integraram a equipe de instrução, policiais militares da Bahia e do Rio Grande do Sul, estado que possui um grupamento semelhante há quase duas décadas.

O capitão Cristiano Gouveia explicou que o objetivo é fornecer aos policiais em treinamento, uma situação similar à da vida real para resgates e salvamentos de alta complexidade.

Equipados com GPS, bússolas, mochilas com kits de primeiros socorros e uma pequena quantidade de água, os policiais participaram de uma longa atividade que teve duração de três dias. A instrução começou com a familiarização e capacitação dos tripulantes operacionais e soldados que se preparam para integrar a equipe de resgate do Graer.

O ambiente oferecia perigo e hostilidade devido às más condições do clima – que se alternou entre bom e chuvoso por diversas vezes – e também por ser um local que ainda não tinha sido desbravado antes.

Após o reconhecimento da área, os 12 integrantes do grupamento se dividiram em duas equipes e iniciaram a preparação dos Taipiris, espécie de cabana, feita à base de palha, além das “camas e colchões”.

Na primeira noite, uma surpresa nada agradável surgiu da mata. Uma cobra jibóia, de aproximadamente dois metros, percebeu a estranha presença dos policiais em habitat e resolveu aparecer. “Após o susto inicial, por pouco a serpente não se transformou em presa”, disse um dos soldados. É que, na mata, qualquer animal se transforma em alimento, segundo informou o capitão Cristiano Gouveia.

Resgate

O sargento Jurandir Xavier afirmou que à noite, a instrução é mais complicada, “pois não há a possibilidade de caça e, para obter algo que sirva de alimento, os soldados têm que enfrentar grandes distâncias por dentro da mata”.

No dia seguinte, cada grupo se separou e seguiu mata a dentro, à procura de algo que pudesse servir como alimento. A primeira turma chegou até à base com um frango, uma galinha e uma preá, enquanto que os outros militares permaneceram na mata.

Um dos treinamentos mais interessantes do Graer foi exatamente o preparo das refeições. Neste caso, os policiais já estavam há 36 horas sem fazer ingestão de qualquer alimento. Os oficiais passavam aos praças, as instruções adquiridas em cursos e capacitações feitas em academias de Polícia da Bahia e outros estados brasileiros.

Antes de ir ao fogo – feito por meio de técnicas bastante rudimentares – os animais tiveram seus couros e penas tirados também de forma rústica. O modo baseado em costumes indígenas evita a contaminação e sujeira da caça.

Enquanto uns policiais saboreavam o banquete, o outro grupo chegava apenas com algumas frutas, que mais tarde teriam um gosto bastante amargo. Eles não sabiam mas, dentro de instantes, seriam desligados do Graer por não seguir corretamente as determinações dos líderes.

O grupo que sobrou passou pela última instrução, que é uma das mais difíceis: simular o resgate de uma vítima de acidente aéreo em plena Mata Atlântica. A tarefa era seguir por mais de um quilômetro de densa floresta, abrindo caminhos, com a vítima presa à uma maca. “Chegando numa clareira, teremos ainda que preparar o ambiente para a aterrissagem do helicóptero de resgate, o que pode levar até duas horas”, informou o capitão Uldinei Rocha.

Para o capitão Eduardo Silva, as etapas mais difíceis do treinamento são as que se sucedem após a entrada na mata, principalmente após às restrições com relação à alimentação e obtenção de água. “Isso começa a mexer com o psicológico dos policiais”.

O comandante do Graer, major Lázaro, fez uma avaliação positiva do treinamento. Segundo ele, os 60 integrantes do grupamento estão aptos a realizar salvamentos e resgates em diversos ambientes em toda a Bahia. O Grupamento Aéreo da PM conta com diversos equipamentos, sendo dois helicópteros, dois motoplanadores, duas caminhonetes, um automóvel, dois caminhões de abastecimento (cada um com capacidade para armazenar 5 mil litros de combustível) e um microônibus.