Na Bahia, existem mais de nove mil casos registrados de pessoas portadoras de HIV. Deste total,, mais de cinco mil recebem tratamento através do Centro de Referência Estadual de Aids (Creaids), ligado à Secretaria da Saúde (Sesab). Ele foi criado para prestar assistência especializada de média complexidade a pacientes com Aids e ajudar na orientação e prevenção da doença no estado.

O centro conta com um ambulatório especializado com capacidade para atender em média 228 pessoas por dia e funciona das 7 às 18 horas. Além disso, existe o serviço do Hospital-Dia, que atende pacientes que já desenvolveram a doença e precisam fazer um trabalho de prevenção contra infecções oportunistas. Caso os pacientes necessitem de internação, são encaminhados para outras unidades especializadas como os hospitais Roberto Santos e Couto Maia.

O atendimento é realizado por uma equipe multidisciplinar, composta por mais de 300 funcionários entre médicos de várias especialidades, infectologistas, psicólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, odontólogos, técnicos em enfermagem, assistentes sociais, farmacêuticos e bioquímicos.

O Creaids também conta com uma central de testagem e aconselhamento, com laboratório, aberto para pessoas que queriam fazer o exame. As pessoas passam por uma sessão de aconselhamento coletivo para tirar as dúvidas, depois uma sessão individual, na qual recebem orientação, no caso de um resultado positivo. No mesmo local, também é feito o acompanhamento para gestantes portadoras do vírus e de crianças até os 18 meses de vida.

A enfermeira, mestre em Saúde Coletiva e diretoria do Creaids, Cristina Camargo, lembra que a principal arma na luta contra a Aids ainda é a prevenção. “É preciso negociar, sim, o uso da camisinha com o parceiro, pois além da Aids, existe o risco de todas as outras doenças sexualmente transmissíveis”, afirmou.

Segundo Cristina, a Aids é uma doença considerada crônica e o vírus é altamente mutante, por isso não existe vacina, mas é preciso aprender a conviver com ele sem perder de vista a questão da prevenção. Para ela, a principal mudança para o controle da epidemia nos últimos anos, foi a atitude dos pacientes soropositivos. “As pessoas passaram a aceitar o tratamento ao longo do tempo, e perceberam que têm condições de levar uma vida prazerosa” disse.

Em todo o estado, existem 27 unidades de serviço especializado graças ao trabalho de descentralização da Sesab. O centro também é responsável por treinar as equipes de serviços de atenção especializada e dos hospitais que estão sob a atenção estadual ou municipal, além de receber algumas missões internacionais que buscam orientação. “Esse ano, pela primeira vez, o Creaids recebeu um convite para levar uma equipe completa à África, para trabalhar com manejo, testagem, aconselhamento e adesão terapêutica”, explicou Cristina.

25 anos de epidemia

Este ano, a epidemia de Aids no país está completando 25 anos. O centro está preparando uma semana de palestras e discussões sobre a história da epidemia, a evolução do tratamento e o desafio de viver com o vírus. O evento terá a participação de diversos movimentos sociais, grupos de apoio, associações e Ongs.

De acordo com Cristina, a terapia antiretroviral obteve uma evolução muito grande para a melhoria das condições de vida das pessoas que vivem positivamente, mas existem algumas vulnerabilidades que ainda precisam de atenção”, explicou. Para ela, é preciso trabalhar a questão programática, que diz respeito à estrutura básica de saúde pública; a questão social, que perpassa pelas condições a que a população vive; e a individual, que trata das características religiosas e educacionais de cada pessoa, fatores que podem dificultar a aceitação do tratamento.

História

O aposentado Rubens dos Santos, de 56 anos, descobriu que é portador do vírus há 18 anos. Ele foi contaminado por meio de relação sexual e há 12 anos faz tratamento no Creaids, mas afirma que se pudesse voltar atrás, teria se prevenido. “Aqui eu tenho o melhor tratamento possível, mas se eu pudesse voltar no tempo teria sim me prevenido”, garantiu.
Rubens chegou a fazer tratamento por conta de duas infecções oportunistas, mas se curou e hoje faz trabalhos voluntários no centro e em outros hospitais, ajudando no aconselhamento e acolhimento de pessoas. Ele afirma que sempre que encontra alguém em depressão por ter descoberto a contaminação pelo vírus, aconselha aos pacientes a fazerem a adesão terapêutica e depois de algum tempo, sempre vê a melhora dessas pessoas. “Eu participo do trabalho de humanização e digo às pessoas que eu não vivo na sombra do vírus, mas os coloco na minha sombra”, garantiu.

O centro ainda tem um projeto de educação, em parceria com escolas estaduais e municipais, com o propósito de modificar a atitude dos jovens quanto à falta de prevenção à doença. Informações sobre sexualidade e detalhes sobre o contágio e a manifestação do vírus estão sendo inseridos na grade curricular das escolas.

Segundo a diretora, o objetivo do centro é garantir um tratamento de qualidade, onde a pessoa não se sinta um doente, mas se sinta acolhida, e saiba que ela tem direitos e deveres. Por isso existe uma preocupação com as condições de vida dos pacientes. Pensando nisso, está prevista para julho a construção de um ginásio para a prática de esportes e outras atividades físicas.