O pedido à Organização das Nações Unidas Para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) para reconhecimento dos municípios de Cachoeira e São Félix, no Recôncavo, como Patrimônios da Humanidade é uma das principais medidas anunciadas nesta quarta-feira (25), pelo governador Jaques Wagner, em Cachoeira, que está sendo a sede do Governo do Estado.

Segundo o secretário estadual da Cultura, Márcio Meirelles, Cachoeira e São Félix devem ser tombadas devido à especificidade destas duas cidades. “Sua configuração cultural, a produção de símbolos, de modos de vida, de saberes concentrados na região, justificam o pleito”, argumentou.

Para que isso seja realizado, o governo estadual, as universidades federais da Bahia e do Recôncavo vão formar uma comissão para elaborar um dossiê que vai embasar a candidatura das duas cidades.

Foi assinado, também, um termo de acordo e compromisso para a elaboração do projeto executivo do Centro Cultural Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, que vai abrigar o Memorial da Boa Morte.

Irmandade da Boa Morte

A Festa da Boa Morte, realizada no mês de agosto pela Irmandade da Boa Morte, é outro símbolo do município de Cachoeira. Atualmente a irmandade, que completou 250 anos, possui 22 membros e outras 6 irmãs estão em processo de ingresso.

Além da festa, as irmãs fazem orações, artesanatos e obras sociais, inclusive com distribuição de cestas básicas. “É uma forma de ajudar as pessoas e de cultuar nossas raízes africanas até a morte”, afirmou a provedora da Irmandade, Joselita Sampaio.

Celestino Gama da Silva, 47 anos, escultor de Cachoeira, faz peças relacionadas principalmente à religiosidade, mas diz que o 25 de junho também faz parte de seu trabalho. “Tenho esculturas históricas, como a do Tambor Soledade, personagem que morreu com um tiro de canhão de um navio português”, afirmou.
O babalorixá Carlos Palma, do terreiro Ilê Axé Alaibi, localizado em São Félix, município separado de Cachoeira por uma ponte sobre o rio Paraguaçu, disse que, a partir de agora, o 25 de junho abre portas para que a região receba atenção de todo o mundo. “Daqui emana uma cultura de matriz africana. Este evento anual agora vai divulgar nossas tradições e atrair turistas”, argumentou.

O grupo do músico Valmir Pereira dos Santos, Gege Nagô, atua na Europa fazendo o que ele chama de música afro-barroca, originada do candomblé. Ele também aprovou a medida. “A gente pode dividir Cachoeira em antes e depois de 25 de junho de 2008. É uma data que vai ficar para os jovens, para que revivamos aquele momento de valor dos baianos que ajudaram a conquistar a liberdade da Bahia e do Brasil”, refletiu.

Ele elogiou o conjunto de medidas anunciadas para a região e disse que serão fundamentais para a produção cultural de Cachoeira e do entorno. “É um grande avanço para nós que buscamos a liberdade de expressão e que representamos os heróis da Bahia”.

Cultura e turismo

Meirelles disse que a transferência do governo para Cachoeira no 25 de junho é o reconhecimento de que o povo baiano comemora a sua luta pela independência, e não a formalidade da declaração do sete de setembro.
“A Bahia sempre comemorou o 2 de julho como a independência do Brasil. Não é possível um país ser livre e independente se uma parte dele ainda está com ocupada por outra nação”, observou

Para ele, o 25 de junho marca um novo ciclo de desenvolvimento, onde o recôncavo tem papel importante, envolvendo a Baia de Todos os Santos e todo um investimento que o governo do estado está fazendo para incentivar um turismo cultural e étnico.

O secretário do turismo, Domingos Leonelli, disse que “o turismo, além da natureza, vive também de suas referências culturais, que é o mais forte no estado. Praia tem em muitos lugares do mundo, mas uma história, cultural e patrimônio artístico como o nosso, só existe na Bahia”.

Leonelli lembrou que, além das ações que beneficiam o turismo nas áreas de infra-estrutura e de estradas, como a que vai ligar Maragojipe a São Félix, houve também a assinatura com a Uneb de um convênio que vai possibilitar a qualificação profissional para um turismo étnico.

“Somente em Cachoeira serão 150 alunos qualificados para o turismo, o que é uma questão fundamental. Por mais simpático e hospitaleiro que seja o nosso povo, é fundamental uma qualificação profissiona”, concluiu.