Segundo historiadores, o 1º de abril de 1500 é pura formalidade histórica. O efetivo descobrimento do Brasil se deu em 1º de novembro de 1501, quando a Baía de Todos os Santos foi singrada pela esquadra de Américo Vespúcio. Considerada a segunda maior baía navegável do Brasil e da América Latina, a BTS foi fator determinante para a fundação da cidade de Salvador e a instalação do centro administrativo da colônia, por ordem do rei D. João III, em 1549.

“Tínhamos uma baía com boas condições de navegação e proteção, esta última condição importante devido às constantes invasões marítimas estrangeiras do século XVI e terras férteis para o cultivo da cana de açúcar em torno dela”, explica Antonio Celso Pereira, superintendente da Secretaria da Indústria, Comércio e Mineração (Sicm).

Com 1.233 quilômetros quadrados de extensão, uma grande biodiversidade marinha e um entorno habitado por cerca de 3 milhões de pessoas de 16 municípios e quatro ilhas, a BTS possui um dos maiores índices de densidade demográfica do estado.

O experiente navegador Júlio Esteves, informa que a BTS, em navegabilidade e atrações turísticas, é uma das melhores baías do mundo. Ele fala com a propriedade de quem, em 35 anos de barco à vela, já cruzou os rios São Francisco (1700 quilômetros, em 1980), Amazonas (2000 quilômetros, em 1984), o egípcio rio Nilo, (o maior do mundo em extensão, em 1985) e atravessou o oceano Atlântico, da Nigéria, na África, a Salvador.

“Temos mais belezas naturais e clima apropriado o ano inteiro, mas nos falta estrutura para aproveitar todas as potencialidades da Baía de Todos os Santos”, enfatiza Esteves.

Turismo

Na opinião do navegador, uma das vocações naturais em potencial do Ministério do Turismo e do Governo da Bahia seria o turismo náutico. Tanto assim que, em Salvador, está sendo realizado, nesta quinta-feira, com encerramento na sexta (13), o I Fórum Náutico Internacional da Baía de Todos os Santos, um evento organizado pelo Promo (Centro Internacional de Negócios da Bahia), ligado à Sicm, com apoio da Ufba, prefeitura de Salvador, Banco do Nordeste, Sudic e Bahiatursa.

De acordo com Leonel Leal, secretário Extraordinário de Relações Internacionais do município de Salvador, a náutica é um “importante vetor de crescimento econômico, gerador de emprego e renda”. Além disso, agrega investimentos nacionais e estrangeiros. Na platéia estavam empresários do setor, técnicos do governo brasileiro e representantes de regatas e competições.

Tecnologia

A atração de regatas internacionais, como as Jacques Vabre e Bahia-Bretanha, ocorridas no ano passado, é apenas o início de uma política em curso no Estado da Bahia, com apoio do Ministério do Turismo, para impulsionar o desenvolvimento socioeconômico da Baía de Todos os Santos. Um levantamento do ministério mostrou que o turista que chega de barco gasta cinco vezes mais do que o que vem de avião.

As atividades econômicas ligadas ao setor náutico demandam uma vasta gama de serviços como arquitetura naval, cursos de habilitação para navegação, mergulho, atracação, guarda e manutenção em marinas e clubes náuticos. Para capacitar profissionais baianos que possam atuar nessa área, a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti) vai construir em, no máximo, dois anos, um Centro Vocacional Tecnológico Territorial (CVTT) náutico.

“Será um centro de formação e qualificação de mão de obra, com laboratórios e oficinas, que vai gerar conhecimento e profissionais capacitados para prestar serviços para a indústria náutica”, afirmou o secretário Ildes Ferreira.

Em paralelo, o governo tem alinhado diversas ações para resolver problemas antigos de má gestão do meio ambiente e desordenamento econômico. Só em saneamento básico, os governos federal e estadual vão investir R$ 212 milhões em obras de esgotamento sanitário, em 12 municípios e 4 ilhas, com o objetivo de reduzir a poluição e proteger o ecossistema.

“A água do esgoto in natura (sem tratamento) lança à baía muitos nutrientes orgânicos e, em conseqüência, muitos organismos não resistem e outros crescem de forma indesejável, causando problemas ambientais como a Maré Vermelha”, diz Jeferson Viana, biólogo do Instituto do Meio Ambiente (IMA), antigo CRA.

O instituto também vem realizando um trabalho preventivo e de combate à pesca com bomba. No dia 10 deste mês, numa ação em parceria com as polícias civil e militar, foi preso o pescador Marco da Guerra, considerado um dos maiores traficantes do artefato da Bahia.

“A bomba mata tudo, toda a cadeia alimentar marinha, das algas aos peixes, num raio de um quilômetro, reduzindo espécies de moluscos, crustáceos e criando um verdadeiro deserto no mar”, explica o biólogo.

A carcinicultura, cultivo do camarão em cativeiro, é outra atividade que foi desenvolvida no entorno da BTS sem planejamento e orientação técnica, ignorando as demandas do ecossistema tradicional e natural, o que tem levado à redução de espécies de mariscos.

Onde hoje há só papa-fumo, já houve mapé, sururu, pé-de-galinha, entre outras. Em relação a isso, o IMA vem reavaliando as licenças dos empreendimentos do setor. “Estamos mapeando, mas são muitos, mais de 50 empresas entre grandes e pequenas”, diz Viana.

Para minimizar o impacto socioeconômico sobre as famílias da região, a Bahia Pesca vem desenvolvendo uma série de ações que beneficiam 13 mil pescadores e marisqueiras artesanais, como distribuição de aparelhos GPS e kit- marisqueira, reformas de colônias de pescadores e implantação de um laboratório de aqüicultura marinha.

Ações estruturantes

Os governos federal e estadual também estão investindo em obras de infra-estrutura nos portos de Aratú e Salvador. Para o primeiro, estão previstos gastos em torno de R$ 44 milhões para serviços de dragagem de aprofundamento dos berços, bacia e canal de acesso dos terminais, com o objetivo de atender aos navios de minérios e fertilizantes, em alta no setor de importação e exportações.

No cais de Água de Meninos, a Codeba, subordinada à Secretaria Especial de Portos, estima investir R$ 41 milhões também em obras de dragagem do leito marinho para aumentar a acessibilidade de navios de grande calado.

“Além disso, vamos reformar e reconstruir 11 terminais marítimos nas ilhas e ordenar e regulamentar o transporte marítimo”, afirma Antonio Batista Neves, secretário de Infra-estrutura. Por ano, 5 milhões de passageiros fazem a travessia da BTS via ferry boat, mas outras milhares de pessoas se arriscam em cerca de 350 embarcações clandestinas.