Diretamente do município de Guanambi, saíram neste sábado (28) as duas primeiras carretas carregadas com o algodão plantado e colhido no Vale do Iuiú, no sudoeste baiano. O destino é São Paulo, mercado consumidor do produto trabalhado pelas mãos de 300 agricultores familiares assistidos pelo Programa de Desenvolvimento Sustentável da Cotonicultura no Vale do Iuiú, executado pela Secretaria da Agricultura (Seagri), através da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA). Criada em 2002, a iniciativa está em sua quinta versão e conta com um investimento de R$ 3,5 milhões na safra 2007/2008.

A previsão é de que mais sete carretas cheias de algodão saiam de Guanambi nas próximas semanas. Cada uma delas carrega 25,5 mil quilos do produto, o equivalente a 130 fardos de algodão em pluma – sem o caroço. Somando com as duas carretas que já saíram, o total chega a 229,5 mil quilos de algodão.

Fazendo as devidas contas, o resultado são R$ 685,5 mil que serão repartidos entre os agricultores, a depender de quanto cada um colheu. Quanto ao caroço, o saldo chega a R$ 60 mil que também vão parar no bolso dos produtores. O próximo destino das carretas com o algodão baiano é o estado da Paraíba.

Para que esse resultado fosse possível, a EBDA ofereceu toda a assistência técnica necessária aos agricultores de oito municípios da região conhecida como Vale do Iuiú – Malhada, Iuiú, Palmas de Monte Alto, Guanambi, Pindaí, Urandi, Brumado e Livramento de Nossa Senhora.

Num total de área plantada de 2.100 hectares, a produtividade média de cada agricultor foi de 130 arrobas por hectare na safra 2007/2008. No intermédio do processo, estão 32 associações de produtores e 80 técnicos da EBDA. Em busca do melhor entendimento possível com os homens do campo, também foi criado um comitê gestor formado por dois representantes de cada cidade.

A cada agricultor, é entregue um kit tecnológico que garante técnicas modernas de preparo do solo e subsolagem, semente certificada, fertilizantes, defensivos agrícolas, inseticidas, pulverizadores, pluviômetro e equipamento de proteção individual (bota, luva, viseira e outros apetrechos).

Ildete Teixeira Fraga, presidente da Associação de Produtores de Enchu (localidade pertencente a Mutans, distrito de Guanambi), elogia o apoio técnico oferecido pela EBDA. “Depois disso, tudo melhorou, desde a semente à qualidade do fungicida. Sem falar na atenção dispensada a nós pelos técnicos que vêm a campo nos orientar”.

Cada agricultor cultiva três hectares de terra e, geralmente, utiliza a mão-de-obra familiar. Além da assistência técnica, a EBDA se tornou um catalisador do processo, passando a administrar o beneficiamento e a comercialização do algodão, evitando que os produtores fiquem reféns dos atravessadores. Os resultados são festejados pelo agricultor Aureliso Costa de Jesus, que colheu nessa safra 120 arrobas na localidade de Canabrava, distrito de Malhada.

“O kit tecnológico oferecido pela EBDA realmente funciona. Com a orientação, consegui uma produtividade maior, o que deverá me render R$ 1,8 mil a R$ 2 mil por hectare nessa safra”, diz ele, que representa a cidade de Malhada no comitê gestor.

Para o engenheiro agrônomo Ernesto Ledo, coordenador do programa, avanços futuros ainda serão conquistados. “A idéia é consolidar esse processo, gerando não apenas renda para os produtores, mas também conhecimento técnico-científico, pesquisa e desenvolvimento na região”, afirma. Ele argumenta que a cadeia produtiva do algodão é a que mais gera empregos, perdendo apenas para a construção civil.

“A geração de postos de trabalho vai desde o lavrador que planta até a atendente da loja que vende a camisa de algodão. Pelo menos um emprego por hectare é gerado e o dinheiro ativa a economia local, passando pela mão de muita gente, incluindo os setores de fiação e tecelagem”, diz Ledo.

Somente o agricultor Elimar Teixeira Fraga dá trabalho a 15 lavradores da localidade de Enchu na época da colheita. Em seus 3,5 hectares plantados, ele alcançou este ano a marca de 630 arrobas, o que lhe dará renda para o sustento de sua família. “A assistência oferecida pela EBDA também nos preparou para o combate às pragas, como o barbeiro Bicudo, o pulgão e as lagartas” conta ele. Os inseticidas distribuídos nos kits ajudam na diminuição da população dessas pragas, o que garante o alívio aos agricultores.

Algodão de qualidade

No total, o programa beneficia 700 agricultores familiares. Desse montante, 300 assinaram contrato com uma usina em Guanambi. Segundo o acordo, a usina fica responsável pela distribuição da sacaria, transporte e armazenamento do produto. O produtor, então, paga ao usineiro 70% do caroço produzido e fica com os 30% restantes mais o algodão em pluma para livre comercialização. E é dessa usina que já saíram as duas carretas cheias de algodão para São Paulo e de onde pretendem sair os outros sete veículos.

O algodão colhido na roça é levado para a usina em caminhões com cerca de 650 sacos cada. Lá, o algodão em pluma é separado dos caroços e, em seguida, vêm as fases do beneficiamento e da comercialização. O corretor de algodão Carlos Diniz, responsável pela compra e venda do produto final, esteve presente no carregamento das carretas que deixaram Guanambi neste sábado e atestou a qualidade do algodão transportado. “O trabalho da EBDA foi feliz e eficiente, pois o produto atende às exigências da indústria têxtil no que se refere à qualidade, uniformidade e ausência de contaminação”.

Diniz verificou que existe o cuidado para que o algodão beneficiado na usina não seja contaminado por outras substâncias, como pena de galinha, pêlo de cachorro e pedaços de barbante. “Percebemos ainda que não há contaminação pelo polipropileno, decorrente da sacaria inadequada. Isso mostra que não haverá motivos para recusa do produto onde ele chegar”, disse.

Os produtores do Vale do Iuiú têm até o dia 31 de agosto para colher todo o algodão que ainda resta em suas plantações. Depois disso, em outubro, começa a nova safra (2008/2009) e todo o processo se reinicia. É quando os agricultores põem a semente na terra novamente e esperam que a chuva ajude para que a próxima colheita seja ainda melhor.

A região de Guanambi já chegou a ter 330 mil hectares de área plantada na década de 80. Depois de uma fase de decadência, manteve a marca de 130 arrobas por hectare e está atrás do oeste baiano, que contabiliza 310 mil hectares de área plantada e uma produtividade média de 300 arrobas por hectare. A Bahia hoje é o segundo maior produtor de algodão do país, atrás apenas do estado do Mato Grosso, que possui mais de 500 mil hectares de área plantada.

Executado na área de atuação da gerência regional da EBDA em Caetité, o Programa de Desenvolvimento Sustentável da Cotonicultura no Vale do Iuiú conta com a parceria da Agência de Defesa Agropecuária da Bahia (Adab), do Fundo de Desenvolvimento da Agricultura Algodoeira (Fundeagro), da Embrapa Algodão, da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa) e da Fundação Bahia, de Barreiras. 

Preços de mercado

  • R$ 12,50 o algodão com o caroço – o chamado algodão em rama ou em capulho
  • R$ 0,50 o quilo do caroço do algodão
  • R$ 44,93 líquidos é o lucro do agricultor por arroba de algodão em pluma, sem caroço

O caroço de algodão é uma oleaginosa muito valorizada no mercado, com uso garantido na produção de ração, óleos e cosméticos. Já a pluma do algodão é utilizada na fabricação de tecidos e cotonetes, sem falar no uso farmacológico do produto.