Mais de 200 pessoas assistiram, nesta quinta-feira (28), no Palácio da Aclamação, as palestras que iniciaram o ciclo de eventos “Os Anos Darwin na Bahia”. Em 2008 se comemora os 150 anos da publicação da teoria da seleção natural, o trabalho mais importante da carreira do naturalista inglês Charles Darwin. No próximo ano, as homenagens continuam, dessa vez para lembrar os 200 anos do nascimento do cientista.

O interesse dos baianos em Darwin tem uma razão que pouca gente conhece: entre os dias 28 de fevereiro e 18 de março de 1832, o naturalista inglês esteve na Cidade da Bahia, como Salvador era conhecida, enriquecendo suas pesquisas em meio às florestas tropicais que na época eram abundantes.

Na primeira carta dirigida a seu pai, em 1o de março daquele ano, Darwin descreve a região que hoje é o Subúrbio Ferroviário como uma “floresta luxuriante”. Ainda segundo o pesquisador, “o barulho dos insetos encontrados na floresta era tão alto que podia ser ouvido de um navio ancorado a jardas de distância do porto”.

Salvador suja e colonial

Sobre a cidade que Darwin viu na primeira metade do século XIX, o historiador Ubiratan Castro, que apresentou uma das palestras, diz que era “suja, colonial e com 52% da população de negros, entre escravos e libertos”. Embora não fosse o tema de suas pesquisas, a escravidão no Brasil comoveu muito Darwin, que, em seus diários, previa que a falta de acesso à educação pela maior parte da população faria com que a sociedade brasileira “se corrompesse por completo”.

Além das observações científicas e pessoais que Darwin fez de Salvador, o pesquisador participou da festa popular que, mais de um século depois, se tornaria a maior do mundo. Poucas dias após a sua chegada, Charles Darwin brincou o primeiro dia de Carnaval, no qual, a partir de seus escritos, parece ter sido alvejado sem piedade por bolas de cera recheadas de água, um costume da época.

Para Charbel El-Hani, professor do Instituto de Biologia da Ufba e coordenador do evento, as comemorações dos Anos Darwin na Bahia “vão reacender o interesse na vinda de Darwin a Salvador e a outras cidades brasileiras, que parece ter sido esquecido nas nossas escolas”. Já segundo Ildeu Moreira, do Ministério de Ciência e Tecnologia, que também proferiu palestra, “não podemos perder a memória desses acontecimentos até porque, para o próprio Darwin, a vegetação que ele encontrou nos trópicos foi uma das lembranças mais marcantes que ele guardou de suas incursões científicas por toda a vida”, destaca.

Anos Darwin têm apoio do Governo

O evento de abertura e os demais que acontecerão em função dos Anos Darwin na Bahia contam com o apoio da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado (Secti) e da Fundação de Amparo à Pesquisa da Bahia (Fapesb). De acordo com o secretário de CT&I, Ildes Ferreira, “ambas instituições têm trabalhado em prol de iniciativas que ajudem a melhorar o ensino das ciências desde a Educação Básica até o Nível Superior”.

Uma dessas iniciativas será o lançamento de um edital, no próximo mês de março, em parceria com a Secretaria de Educação, para apoiar atividades de popularização da ciência. Além dos eventos e do edital, a Secti e a Fapesb vão focar em ações de cunho turístico, a fim de fazer com que soteropolitanos e visitantes conheçam os locais por onde Darwin passou, incluindo o Cemitério dos Ingleses, no qual estão enterrados dois tripulantes da expedição do cientista ao Brasil.