Ialorixás, babalorixás, filhas e filhos-de-santo de vários Terreiros da Bahia lotaram hoje (24) o auditório da Casa do Comércio para o Encontro das Comunidades de Terreiros pelas Águas, promovido pela Superintendência de Recursos Hídricos (SRH) do governo estadual.
Com a bênção dos orixás e a partir das experiências herdadas dos seus ancestrais, eles buscaram inspiração para discutir como a defesa das fontes sagradas de água pode ser traduzida em políticas públicas.
Divididos em quatro grupos, debateram a água como elemento sagrado, a recuperação e o resgate das fontes sagradas, a identificação e manutenção das fontes públicas e a água como elemento de sobrevivência.
No final do evento, as discussões e demandas dos terreiros em torno da água, que tem uma importância especial para os povos-de-santo, embasarão a construção coletiva da arte pelas águas. O documento servirá de base para a elaboração de políticas públicas sobre o tema na Conferência Estadual de Meio Ambiente, que acontece em março de 2008.
Antes da abertura do encontro, os pais e filhos-de-santo fizeram
reverência aos orixás. A cantora Rosa Amélia, acompanhada pelo som da
flauta transversal e do violão de sua banda, saudou Oxum (deusa das águas
doces) e outros orixás, a exemplo de Oxalá e Omolu, no Dia de São Bartolomeu.

‘Carta pelas Águas’

A equede Sinha, do Terreiro da Casa Branca, em Salvador, e coordenadora do Intecab, fez a saudação inicial, agradecendo aos seus ancestrais, antepassados, caboclos, orixás e outras entidades pelo momento, que considerou único e especial.
“A gente cultiva a natureza e começa a cultuar a água como um orixá, um encantado. Esse encontro reúne as irmandades de todas as nações”, disse Sinha.
A intenção, segundo ela, é tirar a Carta pelas Águas. “Vamos pedir a todas as entidades, em quem a gente acredita, tenha o nome que tiver, que nos abençoem”, conclamou, diante de uma resposta positiva: “axé”.
O diretor-geral da SRH, Júlio Rocha, afirmou que o Encontro pelas Águas representa o caráter democrático do governo Wagner de dar voz e vez aos direitos às comunidades tradicionais, respeitando também os saberes populares e as experiências de vida dessas pessoas por meio da escuta permanente.
“Esta é uma possibilidade de dialogar com nós mesmos, com nossas tradições e casar as idéias da gestão pública com a experiência de vida e o cuidado com a água que as comunidades de terreiros irão nos ensinar. Uma oportunidade de ouvir e fazer, através da elaboração da Carta pelas Águas, com que as comunidades de terreiros se encontrem, se expressem e afirmem seus direitos, inclusive, de ter as fontes sagradas como espaços de realização, garantindo o seu olhar nas políticas públicas”, explicou Rocha.

Diálogo

O secretário de Meio Ambiente e Recursos Hídricos, Juliano Matos, destacou que as políticas públicas que serão elaboradas a partir do diálogo com essas comunidades são legítimas, “porque essas pessoas estão trazendo a percepção imediata do cotidiano, dos problemas que elas vivenciam. E isso legitima uma política para que seja coerente, objetiva, que quer dar resultados”.
O secretário de Promoção da Igualdade, Luiz Alberto, afirmou que o Encontro pelas Águas ressalta uma nova fase de gestão pública na Bahia. “É uma fase de relação política do governo que nunca houve. É inusitado convocar a sociedade, como as comunidades de terreiros, para debater questões de interesse do Estado que têm uma relação vital com a água. Estão aqui, hoje, pessoas que historicamente sofreram repressão das suas tradições”, explicou.
Este é o primeiro dos nove encontros que serão realizados em várias partes do estado nos meses de setembro e outubro, reunindo também povos dos campos, crianças, jovens, mulheres, quilombolas, indígenas, empresários, pescadores e marisqueiras.